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Game of Thrones e Feminismo

A quarta temporada de Game of Thrones estreou ontem. Por que muitas feministas adoram a série?

As mulheres que gostam de fantasia, ficção científica, vídeo games, hqs, de cultura nerd em geral, encontram muita dificuldade em fazer parte dessa comunidade que sempre foi dominada por homens. O Imagemmachismo se expressa de diversas maneiras nesses ambientes: a ausência de personagens femininas, temos como exemplo o número reduzidíssimo delas em jogos ou ao seu papel completamente secundarizado – quando não inexistente – nas obras de Tolkien, o pai da fantasia. Nos poucos games, filmes, hqs e livros, quando a mulher aparece diversas vezes é uma projeção hipersexualizada e fetichizada desta.Imagem Diversas são as histórias em que as mulheres são secundarizadas, colocadas enquanto objetos nas lutas dos homens ou como um troféu a ser conquistado. Não seria a toa que o machismo se mostra tão latente nessa comunidade, tanto pelo já exposto como no desmerecimento da inteligencia e capacidade das mulheres entenderem e participarem do que por muito tempo foi “coisa de menino”, ou pela ideia de que as mulheres que curtem essa cultura estariam lá só para conquistar homens.

ImagemDiante da pergunta: “Como você consegue escrever personagens femininas tão interessantes e diferentes?” George R. R. Martin, o escritor das Crônicas de Gelo e Fogo (na HBO adaptada a série Game of Thrones), foi direto: “ Eu sempre considerei que as mulheres fossem pessoas.” Retoma, portanto, o slogan feminista: o feminismo é a ideia radical de que as mulheres são gente. Essa afirmação do autor é extremamente válida, uma vez que a literatura fantástica por muito ignorou a participação feminina nestes mundos. Mas o discurso do autor se verifica em sua obra?

As Crônicas de Gelo e Fogo é uma série fantástica, composta por 5 livros já publicados, e outros 2 a serem lançados. Passa num mundo imaginário muito parecido com o feudalismo da Idade Média, mas no qual as estações climáticas duram anos e elementos de magia, como dragões, wargs, lobos gigantes, e uns zumbis de gelo (Outros) trazem novos elementos para a trama. Como toda literatura fantástica, as crônicas levam muitos elementos da nossa História para outros mundos, bem como a maneira em que a sociedade é estruturada. Como pilar fundante da nossa sociedade há milhares de anos, o patriarcado se mostra presente na estória. O diferencial, contudo, se faz na versão da História ocidental que George R. R. Martin adota.

A História é escrita pelos vencedores. As mulheres uma vez oprimidas pelo patriarcado viram-se despidas de sua própria história, como se estas tivessem sido passivas durante toda a História ocidental. Isso é uma grande mentira. No último século, diversas mulheres se debruçaram para descobrir nossa história não contada nos livros didáticos e ignorada por diversos historiadores. Diversos foram os momentos em que as mulheres organizadas foram fundamentais, lutaram e morreram, para uma mudança de paradigmas sociais. Portanto a visão de que as mulheres eram passivas diante da organização social e da opressão que sofriam é completamente equivocada. É a partir desse fundamento que George R. R. Martin escreve as Crônicas.

A sociedade que o autor criou, em muito se assemelha a sociedade feudalista da Idade Média. É, portanto, uma sociedade patriarcal, no qual para os nobres o papel do casamento é a manutenção da paz entre diferentes famílias. Nesse contexto, o papel social da mulher nobre é a procriação e ponto final. George, diferentemente de muitos outros autores de fantasia, não acredita que as mulheres aceitam este destino de maneira automática, bem como que estas mulheres sejam vazias de conteúdo, desejos e ideias. O mundo criado por ele, por ter como base nossa própria história, é machista e misógino. Contudo, a obra criada por ele é feminista, uma vez que coloca as mulheres enquanto sujeitas e protagonistas de suas histórias, dando a profundidade e individualidade que todas nós possuímos.Imagem

São diversas as personagens femininas, uma completamente diferente da outra. Todas, porém, são fortes e essenciais para o decorrer da estória. De tantas, é difícil até eleger uma favorita. Elas são mães fortes e protetoras (Cersei e Cat), são mulheres guerreiras (Arya, Brienne, Ygritte, Osha, Yara, As serpentes da areia), são mulheres que conhecem suas armas (Ariane, Margery, Shae), são conquistadoras (Daenerys), são mulheres que reproduzem a lógica em que foram criadas (Sansa), são mulheres que jogam o jogo (Olenna e Melisandre).

Num momento em que o movimento feminista encontra um maior respaldo no corpo social, é de extrema importância que consigamos incindir em espaços predominantemente masculinos. As Crônicas de Gelo e Fogo, e a adaptação para a televisão, Game of Thrones, mostram-se como um marco importante para o combate do machismo na cultura nerd, bem como em trazer questionamentos para todos/as aqueles/as que acompanham a série. Super indico!


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65% é a buceta, vamos à luta!

Não posso dizer que estou surpresa com a pesquisa do IPEA, mas meu estômago está pra lá de embrulhado.

Não posso dizer que estou surpresa porque sou mulher e sei muito bem o que é ser assediada desde os 12 anos de idade. Isso mesmo 12 anos de idade! Com treze, me lembro de estar na praia e ouvir de um senhor idoso: “vem aqui passarinha!” virar para o lado e comentar com outro senhor: “chupava até os ossinhos.” Não, este senhor não era um monstro, era um entre vários aposentados de classe média que se mudam para Santos, provavelmente casado, com filhas e netas. Imagem

Não posso dizer que estou surpresa pois desde muito nova sou educada a não ser estuprada. Tão nova, que minha inocência infantil me fez crer que os comerciais da MTV que falavam pra sempre levarmos camisinha na bolsa era por conta de estupros. Desde nova me ensinaram a ser recatada, a não usar roupas curtas, a não sentar com as pernas abertas, a não aceitar bebidas de estranhos, que moça direita não sai sozinha a noite. Desde que me lembro, todo dia tenho que pensar em toda minha rotina para saber que horas e como vou voltar pra casa porque é a partir dessas informações que poderei saber que tipo de roupa posso vestir.

Não posso dizer que estou surpresa porque desde nova ouvi dizer que mulher tem que se dar respeito, como se fosse algo que devêssemos conquistar e não um direito nato. Se dar respeito, nesses termos, é não parecer fácil, puta, vadia. Não tem só ligação com as roupas que uso, mas a maneira que falo, que me comporto, que ando, os locais que frequento, as companhias que tenho, como expresso minha sexualidade. Se dar ao respeito, nessa visão, é ser completamente inativa, objeto, figurante, não pessoa.

ImagemNão posso dizer que estou surpresa porque entrei na faculdade e fui recebida com músicas das atléticas que além de machistas fazem apologia ao estupro, afinal “puquiana não sente dor”. Percebi que os cartazes de festas exibiam sempre partes de corpos de mulheres seminuas, usando a objetificação do nosso corpo para obter mais lucro. Porque ouvi piadas, risadinhas e o menosprezo quando tive aula sobre crimes contra a dignidade sexual e sobre a Lei Maria da Penha. Porque um vídeo de um estupro percorreu os celulares dos estudantes que o assistiram enquanto entretenimento.

Não posso dizer que estou surpresa porque a mídia e a publicidade usam e abusam dos corpos das mulheres para vender. Somos brindes de cerveja, carros, desodorantes, lâminas de barbear. A mídia hegemônica não só invisibiliza as pautas das mulheres como ironiza, ridiculariza e faz piada, Rafinha Bastos e Zorra Total estão ai pra provar. Os jornais que julgam qualquer pessoa antes da Justiça não tem a mesma atitude quando o crime é contra a mulher, mas pior, culpabilizam elas pela violência que sofreram.

Não posso dizer que estou surpresa porque ainda tenho o maldito costume de ler comentários em sites de jornalismo e vejo essa realidade todos os dias. Porque vejo a incapacidade do facebook de reconhecer uma página de apologia ao estupro como uma página de ódio. Porque vejo a falta de vontade das polícias de apurar crimes em que mulheres são vítimas. Porque vejo a primeira presidenta mulher do Brasil recuar justamente na pauta feminista para garantir votos.

ImagemE para não deixar dúvidas sobre a verdade da pesquisa o show de horrores dos estupradores, misóginos, machistas, alienados nos deixa com a certeza de que estamos certas. Se alguém tem dúvida se o machismo existe, ou se ainda há razão de ser para o feminismo é só entrar nas páginas de protesto que foram criadas, você verá desde a pura misoginia até a alienação ignorante da pergunta: o que o estupro tem a ver com o machismo?

Não foi surpreendente, mas espero que tenha sido para muit@s. Que mais mulheres consigam perceber a sociedade machista em que estamos inseridas, que venham para a luta! Que mais homens consigam reconhecer seus privilégios e nos acompanhem. Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente, dignas de respeito a despeito da maneira que se vistam ou se comportem. À luta mulherada! “Nossa liberdade não será dada, será conquistada pelas mulheres na LUTA!” (1)

(1) Coletivo Feminista Yabá – Direito PUC-SP


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Carne de Carnaval

No carnaval pode tudo. No carnaval a mulher é livre pra se fantasiar do que quiser. No carnaval as mulheres podem ficar com os peitos de fora em rede nacional. No carnaval se faz campanha do uso de camisinha, no carnaval pode-se transar com o cara que você acabou de conhecer.

A mulher é livre no carnaval?

Não… Se a mulher já é alvo de assédio durante o resto do ano, no carnaval a escalada desse tipo de violência é assustadora.

São pouquíssimas as mulheres que nunca tiveram seus corpos apalpados, encoxados, roçados sem seu consentimento, por homens que nunca viram antes. Poucas são as mulheres que não tiveram seus cabelos, mãos e braços puxados, seu caminho obstruído por um marmanjo que só a deixaria passar se lhe desse um beijo. Muitas sofreram investidas, beijos forçados, foram agarradas.

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A mulher que ousa estar e ocupar o espaço público sempre sofreu com o assédio. Somente uma mulher consegue entender o quão profundamente essa violência cotidiana pode nos atingir. Ter nossos corpos observados como se estivéssemos numa vitrine de objetos sexuais, tira completamente a nossa humanidade, nos transformando em coisas. Comentários de todos os tipos, nos colocam na defensiva em todos os lugares que passamos. Pensamos em roupas, em caminhos, em horários, para podermos nos prevenir do que pode acontecer nas ruas.

Para a lógica da cultura do estupro, na qual vivemos, a mulher se faz de difícil, a insistência traz recompensa, o “não” quer dizer “sim”. No carnaval essa lógica é pintada com cores mais vivas, toda mulher que está na rua disse “sim” ao sair de casa. O corpo da mulher que vai curtir o carnaval é público, ainda mais público que já o é normalmente.

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Se ao longo do ano as mulheres negras são ridicularizadas e invisibilizadas, durante o carnaval, festa de raiz e resistência negra, seu papel é interpretar a hipersexualizada personagem da mulata. Seus corpos, carnes mais baratas do mercado, são vistos como objetos sexuais para aventuras de brasileiros e gringos. As camisetas da Adidas estão ai para não nos deixar mentir. A Globeleza está ai para não nos deixar mentir. Citando post da campanha do Coletivo Negração:

 “A Globeleza representa a nossa exploração, representa o quanto ainda nos tratam como se só fossemos feitas para o sexo e para demonstrar, dentro da sociedade, o selvagem, o folclórico. Ela representa o controle que a mídia branca e machista obtém sobre os nossos corpos, mas não se deixem enganar, “não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria, é atrair gringo turista interpretando mulata.”

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Neste ano, percebi diversas campanhas por um carnaval sem violência contra a mulher. Espero que estas despertem a sensibilidade de muitos homens, para que tenhamos um carnaval com menos agressões e violações de direitos das mulheres que o anterior. Mulheres, negras, indígenas, amarelas, brancas, lésbicas, bis, heteros, trans, cis, estamos juntas! Somos mulheres e não objetos. Por um carnaval sem violência!

http://coletivonegracao.blogspot.com.br/2014/02/minha-carne-e-de-carnaval-nao-teu.html


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Bonitinha mas Fuma?

Nesse primeiro post queria dar uma breve explicação sobre o nome do blog. Desde já obrigada pela visita, volte mais vezes!

XX

Quantas mulheres fumantes não tiveram que ouvir de pessoas completamente desconhecidas “você é tão bonitinha, pena que fuma” ou derivados? Aposto que muitos homens também já ouviram essa mesma frase. Mas a versão masculina da famosa “Não gosto de mulher que fuma”, com certeza é muito menos ouvida.

Não esse blog não quer fazer apologia ao uso de nicotina.  Você tem todo o direito de não gostar de cigarro, de bebida, de remédio, de maconha, cocaína, etc. O problema é quando associam mulheres usuárias de drogas a algo negativo simplesmente pela fuga dos padrões a elas impostos.

À mulher não cabe o prazer, seu posto é no ambiente privado, no trabalho doméstico, no cuidado com as crianças e velhos, na dupla jornada. O prazer é domínio dos homens, que estão no ambiente público, ambiente que proporciona lazer, depois do árduo período de trabalho. É compreensível, nesta lógica, que o homem fume um cigarro ou beba para aliviar o estresse do dia a dia. A mulher não teria essa necessidade, uma vez que, para este tipo de pensamento, ela não estaria realizando trabalho algum, mas só concretizando sua função natural.

O prazer da mulher sempre foi cerceado, a revolução sexual ainda está longe de ser completa. Capas de revistas ditas “femininas” que trazem matérias como: “Como deixar seu marido louco na cama”; “Seja dama na rua e puta no quarto”; “Como não perder o gato em 5 posições sexuais” deixam evidente que ainda temos muito o que andar. A masturbação feminina está entre o tabu dos tabus, pesquisas mostram que 1/3 das mulheres brasileiras nunca experimentaram orgasmos nas suas relações sexuais, e muitas outras o simulam para agradar seus parceiros.

Então, quando uma mulher toma a decisão de sentir prazer por si própria, como pela utilização de drogas, a reação é feroz. Mesma reação que é vista contra as mulheres que vivem sua sexualidade de forma plena, ou daquelas que querem decidir sobre seus corpos, sem intervenção de marido, estado ou igreja. É a reação vista contra todas as mulheres que ousam dizer: “Meu corpo, minha escolha!”